Escrevo
Não posso dizer que dormi, mas cheguei a sonhar
Me sinto descansado, de verdade
A neblina baixa esconde o céu limpo
A rodovia não para
Câmera na mão, placa de divisa, click
Ora de voltar a rodar
Não demora muito até me ver rodando novamente
Cara simpático voltando de um fretamento com sua van
“Te deixo na rodoviária”
Aceitei, uma ideia boa para o corpo já cansado
No guichê a pergunta: Pra onde?
Pra onde? - Repito a pergunta pra mim mesmo
Sento um pouco, abro o pc
Internet, não é boa, mas dá pra usar
Sigo o mapa com o dedo na tela
Penso um pouco e decido
Volto ao guichê orgulhoso de minha escolha
Mas o próximo embarque é 12h30
Voltei para o meu banco
Tédio com tempo pra descansar
Sem ver o tempo passar me preparo para um passeio
Almoço barato? Tá pra mim
Volto para a rodoviária e ainda há espera
Estou satisfeito e feliz
Embarque tumultuado
Muita gente pra pouco ônibus
No meu lugar escrevo
Linhas de ontem que não registrei
O anel no dedo trás a sua falta
Logo serão apenas histórias
Viagem longa
Não o suficiente para uma parada
Desembarque mais tumultuado
O passageiro ao lado, espaçoso
Ou eu, mas isso não vai virar história
Em pé me vejo novamente
Subo para o guichê
Novo trecho, já sei onde vou
Já sei o horário e até o caminho
Escolho a poltrona, pago, saio
Saio para caminhar nessa cidade
Cidade que tanto amo, que tanto odeio
Panetone, pé de moça, um sorriso
Sento na espera para ouvir umas músicas
O fone ficou no outro ônibus
A raiva não vai me consumir
Dessa vez não
Outro fone virá, disseram os esotéricos
Novo embarque, muito mais organizado
Os panetones foram no porão mesmo
35... 36... 37! Cheguei
Mas esse ônibus é de dois andares
E o 03 estava livre, vista panorâmica
Agora posso ficar com raiva?
Sento, escrevo, me entedio
Porque escrevo?
Porque não posso ser como os outros?
Cerveja, futebol, mulheres
Mulheres não, mulheres eu gosto
Mas eu escrevo, fotografo e viajo
Confundo nomes de cidades
Confundo histórias
Só há o asfalto à minha frente
Decoro nomes de rodovias, mas
Não sou capaz de reconhecer rostos do caminho
A página em branco torna-se assim minha amiga
Sempre sou o inquieto da viagem
O que caminha pelo corredor muito além de seu assento
O 03 ainda está livre...
Já acomodado me vejo escrevendo
Lá fora chove sem parar
Aqui quem resfria é o ar
Alguns Éons depois a cidade aumenta na janela
Não tenho pressa, minha mochila é a última
E com certeza não perderei outro fone
Chego no apartamento, sono bate forte
- Vamos sair para jantar?
- Claro.
A primeira balada estava meio morta
Na segunda tinha funk
Ninguém desanima com funk
O chopp estava em dobro
Porque parar no segundo?
Posso beber dois e ingerir quatro
Logo o Ismael surge
“Você conhece o Ted?”
Quatro, cinco, seis
- Vamos no karaokê?
- Bora.
O bando aumenta
Continua...
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